Trajeto temático
Ceres Ferreira Carneiro (UERJ)
Fernanda Luzia Lunkes (UFSB)
Silmara Dela Silva (UFF)
Ao tomarem o conceito de arquivo para discutir suas dúvidas sobre a constituição do corpus em Análise do Discurso, Guilhaumou e Maldidier apresentaram, em 1979, a noção de trajeto temático como “conjunto de configurações textuais” que associam um conhecimento a outro. “A análise de um trajeto temático remete ao conhecimento de tradições retóricas, de formas de escrita, de usos de linguagem, mas sobretudo interessa-nos pelo novo no interior da repetição” ([1979] 2014, p 173). O trajeto temático diz respeito aos percursos de um discurso, sua trajetória no curso dos dizeres, que possibilita o entrecruzamento de enunciados, visto que tema, sentidos (e não conteúdo) sobre uma questão se associem, se relacionem enquanto efeitos. Trata-se, conforme os autores, de uma maneira de compreender a relação entre um “tema” e o acontecimento do discurso que o mobiliza. Empregamos as aspas porque não compreendemos “tema” como um conteúdo a ser buscado/encontrado em um dizer, uma vez que a definição de discurso como efeitos de sentidos, tal como proposto pela perspectiva materialista, decorre justamente da compreensão de que os sentidos não se originam na língua, mas se constituem na relação entre língua, história e sujeitos, conforme afirmamos anteriormente. Um dizer não encerra em si um “tema”, como algo a ser buscado na transparência da linguagem; um dizer possui uma espessura material, marcada pela opacidade da linguagem, a partir da qual se produzem determinados efeitos de sentidos e não outros; efeitos de sentidos que se dão em relação a posições sócio-históricas em jogo.
- Zoppi-Fontana (2003) recorre à noção de trajeto temático enquanto um “dispositivo de leitura” que atua como um fio condutor capaz de “agrupar materiais textuais diversos na construção do corpus, considerando a sua dispersão decorrente da “natureza heterogênea” dos discursos midiáticos que o comporão.
- França (2018) se vale da noção de trajeto temático para interrogar “constantemente o corpus, que está, nesse sentido, em permanente construção, guiado pelo desenvolvimento da análise e por redes de sentidos, que tomam a forma de trajetos temáticos (através de diferentes materiais e condições de produção), como dispositivo de leitura de arquivo”, empreendendo a partir de então a seleção dos textos “sobre viagens turísticas ao Brasil (tema), (ii) em materiais impressos e digitais” que constituíram o corpus de sua tese.
- Em seu artigo, Dela-Silva e Lunkes (2024), propõem, pelo “trajeto temático no discurso jornalístico brasileiro” associar “a felicidade ao efeito de mobilização de medicamentos prescritos para a depressão, como apontam as análises realizadas por Lunkes (2018), centradas no discurso sobre depressão e medicalização em Veja, revista com circulação nacional, ao longo de 42 anos de publicações”.
Trajeto temático retoma um primeiro gesto de inventariar essa noção teórica, apresentado em:
CARNEIRO, Ceres Ferreira; LUNKES, Fernanda Luzia; DELA-SILVA, Silmara. Um inventário digital e(m) práticas de leitura. In: MARIANI, Bethania; RODRIGUES, Andréa; DIAS, Juciele; FRAGOSO, Élcio. (Org.). A linguagem e seu funcionamento: 40 anos… e mais. 1ed.Rio de Janeiro: Edições Makunaima, 2024, v. 1, p. 195-211. Disponível em: https://www.edicoesmakunaima.com.br/2024/08/22/a-linguagem-e-seu-funcionamento40-anos-e-mais/.
Referências
DELA-SILVA, Silmara; LUNKES, Fernanda. Dizer da felicidade, dizer de si: o científico e o cotidiano no discurso da/na mídia. In: MARIANI, Bethania; FORTINEAU-BREMOND, Chrystelle. (Org.). Territórios do íntimo: linguagem, literatura, sociedade / Territoires de l’intime: langage, littérature, société. Campinas-SP: Pontes Editores, 2024, p. 459-485.
FRANÇA, Gloria da R.A. Gênero, raça e colonização: A brasilidade no olhar do discurso turístico no Brasil e na França. Linguistics. Université Sorbonne Paris Cité; Tese (Doutorado). Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018.
GUILHAUMOU, Jacques; MALDIDIER, Denise. [1979]. Efeitos do arquivo. A análise do discurso no lado da história. In: ORLANDI, Eni. (Org.) Gestos de leitura. 4. ed. Campinas: ed. da Unicamp, 2014, p. 169-191.
LUNKES, Fernanda L. O discurso sobre depressão na revista Veja (1968-2010) em materialidades verbais e não-verbais: o triunfo dos efeitos de sentidos de medicalização. Tese de doutorado, UFF, 2014.
ZOPPI-FONTANA, Mónica. Identidades (in)formais. Contradição, processos de designação e subjetivação na diferença. Organon, Porto Alegre, v. 17, n.35p. 245-282, 2003. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/organon/article/view/30027/18623. Acesso em: 17 dez. 2025.
