símbolo marca dagua

Flagrante urbano

Fernanda Lunkes (UFSB)

A expressão ‘flagrante urbano’ é mobilizada por Eni Orlandi no trabalho intitulado “Tralhas e troços: o flagrante urbano”. A entrada da reflexão ocorre pela relação que a autora estabelece com o “’fragmentário’ da cidade” (Orlandi, 2001, p. 10). De acordo com Orlandi, assumir a cidade enquanto fragmentada parte de uma evidência anterior, qual seja, o “efeito da vontade de totalidade dada pela impressão de arredondamento da ‘paisagem’ (landscape): totalidade abrangida e abrangente do olhar” (ibidem). A autora propõe, assim, um “real da cidade”, o qual disponibiliza outra apreensão de sentidos, um processo promissor à luz dos dispositivos teóricos da Análise de Discurso materialista por permitir justamente a compreensão dos flagrantes da cidade.

            Ainda nesse estudo, Orlandi articula os flagrantes urbanos ao que designa enquanto “narratividade urbana”, que destitui o narrador da posição privilegiada do contar sobre a cidade para fazer emergir diferentes pontos de materialização. Desse modo, os flagrantes urbanos funcionam como formas heterogêneas cujas materializações compõem o discurso urbano. A autora cita o “rap, a poesia urbana, a música, os grafitos, pichações, inscrições, outdoors, painéis, rodas de conversas, vendedores de coisa-alguma” (Orlandi, 2021, p. 11). Com o percurso teórico-analítico discursivo, o imaginário urbano, regido pelo político, pode ser atravessado para colocar em questão outros sentidos, permitindo vislumbrar o que se coloca do real da cidade e dos sujeitos urbanos.

            A noção de flagrante urbano é retomada no artigo “Lembrar é resistir”(?): Discursos sobre o regime militar em disputa”. Nesse texto, Lunkes e Dela-Silva (2020) mobilizam a noção a fim de estabelecer relações de sentidos entre o vídeo institucional do Memorial da Resistência e alguns cartazes que circularam no espaço urbano em manifestações políticas realizadas no ano de 2015. Situando as condições de produção de ambas as discursividades, retomam o estudo de Indursky (2016) ao voltarem-se às manifestações de 2013 e 2015. Nesse estudo, a autora menciona a “ideologia do ódio” (Indursky, 2016, p. 79), cujo funcionamento pode ser depreendido nos dizeres em circulação durante as manifestações.

            A fim de dar consequência analítica ao percurso desenvolvido, Lunkes e Dela-Silva (2020) mobilizam a noção de flagrante urbano na relação com tais registros (cartazes nos quais comparecem discursos de ódio), vinculando-a, por exemplo, ao gesto de segurar um cartaz para fazê-lo comparecer e circular em uma manifestação no espaço público (como a rua), e ainda pelo modo pelo qual esse gesto é registrado e posto a circular em outros espaços, como o virtual.

A fim de tornar mais didático esse percurso, as autoras propõem, assim, um gesto de leitura que decompõe as condições de produção e as condições de formulação e circulação, o que não os torna, por sua vez, processos estanques e divisíveis. As autoras explicam:

Propomos conceber tais registros enquanto flagrantes urbanos: de maneira preliminar, propomos compreendê-los como gestos cujo enquadramento produz efeito de maior ou menor espontaneidade. Gestos que colocam em questão, sobretudo, uma tomada de posição político-ideológica pelo/no espaço urbano por sujeitos e diferentes grupos. Flagrante urbano pode, assim, ser compreendido em nossa análise a partir de um duplo funcionamento: i) empiricamente, trata-se do registro efetuado da paisagem urbana e/ou de qualquer ação realizada no espaço urbano; ii) analiticamente, trata-se do que, pela força da repetição ou pela emergência produzida pelas condições de produção, comparece no espaço da cidade e constitui objeto de análise do/para o analista de discurso, que pode se dedicar a compreender o funcionamento de uma ou mais materialidades significantes em jogo. Nesse sentido, é preciso também considerar os espaços de circulação a partir dos quais tais flagrantes ganham relevo (Lunkes; Dela-Silva, 2020, online).

Como efeito de fechamento, retomamos um fragmento do texto de Eni Orlandi, no qual ela aborda a mobilização da noção de flagrante urbano e seu funcionamento para os estudos da linguagem:

nosso recorte […] privilegia a instalação, o lembrete, o flagrante como o lugar da cidade se narrar: lugar em que o corte é rápido e a des-transformação é o modo de intervir. Nesses trajetos que reencaminham a linguagem para o real da história – passando ao lado do percurso da mídia e das tecnologias de linguagem em que se multiplicam os meios e se restringem os sentidos – a nossa tarefa como analistas não é a de interpretar, mas dar condições para que as pessoas se confrontem com a materialidade desse discurso, trazendo para o urbano o real da história e o real da língua (Orlandi, 2001, p. 13)

Em 2012, Angela Baalbaki, em seu artigo intitulado Análise discursiva de revista de divulgação científica: o lugar da memória do futuro, trata sobre o funcionamento da “narratividade” ao se debruçar sobre as análises de imagens de criança, de cientista e de sua profissão a partir das postagens da seção “Quando crescer, vou ser…” da revista Ciência hoje da criança. A autora diz do efeito de linearidade histórica, produzido pela “narratividade”, considerando que os dizeres dos sujeitos-jornalistas são organizados em presente-passado-futuro e, assim, propiciam determinados sentidos a se estabilizarem e a se tornarem hegemônicos.

Em 2018, Bruna L. de Souza, Jéssica S. Rangel, Laís S. Alcântara e Luan Siqueira retomam a noção de narratividade para refletir sobre as eleições municipais, de 2016, do Rio de janeiro. Os autores entendem que os jornais cariocas O Globo e Extra, em seus discursos sobre as eleições formulados em manchetes, buscam criar uma linearidade narrativa política, ou seja, narrativizam os fatos expostos a fim de influenciar a opinião pública a respeito dos dois candidatos que disputavam o pleito em 2016: Marcelo Freixo e Marcelo Crivella.

À luz da noção de narratividade, temos que discursos produzidos por sujeitos-jornalistas, aparentemente dispersos, podem ser compreendidos como uma longa narrativa a respeito de um objeto (referente) e que, por sua linearidade temporal, acabam por dar a ilusão de completude e de continuidade da história contada, criando, assim, um efeito de verdade, de cristalização dos acontecimentos.

Narratividade retoma um primeiro gesto de inventariar essa noção teórica, apresentado em:

DELA-SILVA, Silmara; LUNKES, Fernanda; CARNEIRO, Ceres. Discurso e mídia e(m) inventário digital: uma pesquisa em movimento. In: FLORES, Giovanna B. et al (Orgs.). Análise de discurso em rede: cultura e mídia. Vol. 6. Campinas-SP: Pontes Editores, 2023. p. 347-362.

Referências

INDURSKY, Freda. Os (des)caminhos do discurso político brasileiro na contemporaneidade. In: GRIGOLETTO, Evandra; NARDI, Fabiele Stockamans de. A Análise do Discurso e sua história: avanços e perspectivas. Campinas: Pontes, 2016. p. 65-87.

LUNKES, Fernanda L.; DELA SILVA, Silmara. “Lembrar é resistir”(?): Discursos sobre o regime militar em disputa. Revista da ABRALIN[S. l.], v. 19, n. 3, p. 348–364, 2020. DOI: 10.25189/rabralin.v19i3.1705. Disponível em: https://revista.abralin.org/index.php/abralin/article/view/1705. Acesso em: 28 nov. 2025.

ORLANDI, Eni. Tralhas e troços: o flagrante urbano. In: ______ (org.) Cidade atravessada: os sentidos públicos no espaço. Campinas: Pontes, 2001, p. 9-24.

UFF – Universidade Federal Fluminense
Instituto de Letras
R. Prof. Marcos Waldemar de Freitas Reis, s/nº,  Campus do Gragoatá, Bloco B Sala 410
Niterói, RJ | CEP 24210-201

Siga-nos

@2026 Midi