Arquivo
Fernanda Lunkes (UFSB)
Silmara Dela Silva (UFF)
Sob a perspectiva da análise de discurso, o arquivo, seja enquanto noção, seja enquanto objeto, tem se mostrado bastante produtivo.
No texto “Ler o arquivo hoje”, Pêcheux (2014 [1981], p. 59) desestabiliza os sentidos naturalizados em torno do arquivo e da prática arquivística sem deixar de trazer, contudo, uma das evidências que comumente circulam e que dão conta, de forma ampla, da compreensão assumida, qual seja, a de arquivo enquanto “campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão”.
Em seu caminho argumentativo, o cerne da problematização de Pêcheux ocorre ao interrogar os gestos de leitura que funcionam implicitamente nas culturas “literária” e “científica”, tanto no calor dos debates produzidos no interior de tais culturas como entre aqueles que a elas se filiam. Conforme o autor, “os conflitos explícitos remetem em surdina clivagens subterrâneas entre maneiras diferentes, ou mesmo contraditórias, de ler o arquivo […]” (Pêcheux, 2014 [1981], p. 59, itálicos do original). Pêcheux alcança, assim, a “divisão social do trabalho da leitura”, marcada por relações contraditórias, desiguais e subalternas, segundo a qual caberá somente a alguns privilegiados, no efeito ideológico de naturalização e a legitimidade, produzir o que se considerará a leitura original – ou seja, interpretações –, enquanto outros farão um trabalho anônimo e posterior, o qual se dedica a preparar e sustentar formas de tratamento a essas interpretações.
Com essa perspectiva em vista, surge a possibilidade, segundo o autor, de suspender o que designa de “leitura ‘espontânea’” para colocar em movimento teórico-analítico uma “leitura interpretativa”, que compreende como uma já escritura, assim como a constituição de um espaço dessas maneiras de ler cuja marca é a polemicidade, uma vez que as relações de sentidos estabelecidas poderão ser, inclusive, do arquivo consigo mesmo.
Na cultura científica, o autor constata uma reorganização na divisão social do trabalho da leitura, o que implica um posicionamento teórico e prático, sobretudo do campo das humanidades – no sentido mais amplo –, em relação à informática do qual não se pode escapar, já que, como adverte Pêcheux, as “consequências repercutirão diretamente sobre a relação de nossa sociedade com sua própria memória histórica” (Pêcheux, 2014 [1981], p. 62).
Como afirmam Dela-Silva e Lunkes (2014, p. 137):
Quando pensado discursivamente, o arquivo comporta mais que um simples conjunto de documentos agrupados por uma lógica institucional. Ele direciona e interdita efeitos de sentidos, que se produzem pela inscrição da língua na história; e enquanto discurso, a sua leitura, por consequência, não pode prescindir de suas condições de produção (PÊCHEUX, [1969] 1997). “Entre a materialidade da língua e da história aí se situa para Pêcheux o arquivo.” (ROMÃO; LEANDRO-FERREIRA; DELA-SILVA, 2011, p. 13)
O arquivo, na análise de discurso, não deve ser compreendido na evidência do conjunto de documentos que decorre de um processo de arquivamento. Retomando uma vez mais Dela-Silva e Lunkes (2014, p. 137), em sua leitura de Pêcheux (2014 [1981]), entendemos que um “arquivo implica processos de seleção e exclusão, em decorrência do que se organizam evidências de leitura”. O arquivo deve, assim, ser considerado em relação aos gestos de leitura que o constituem e aos processos de silenciamento que necessariamente produz.
São muitos os trabalhos em análise do discurso, desenvolvidos no Brasil nas últimas décadas, que mobilizam a noção de arquivo em sua constituição. Dada a impossibilidade de mapeamento do conjunto desses trabalhos, uma vez que, conforme afirmamos, trata-se de uma noção de caráter teórico-metodológico que tem se mostrado bastante produtiva, optamos por elencar a seguir algumas referências bibliográficas de trabalhos que conceituam a noção de arquivo, mobilizando-a a partir da leitura do texto basilar de Pêcheux (2014 [1981]), sem, no entanto, qualquer pretensão de exaustividade.
BARBOSA FILHO, Fábio Ramos. Ler o arquivo em análise de discurso. Cadernos de Estudos Linguísticos, v. 64, p. e022007-22, 2022. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cel/article/view/8664658
DELA-SILVA, Silmara. Do acontecimento jornalístico e do arquivo: efeitos do/no discurso. In: GRIGOLETTO, Evandra; DE NARDI, Fabiele S. (Org.). A Análise do discurso e sua história: Avanços e perspectivas. Campinas-SP: Pontes Editores, 2016. p. 257-269.
GUILHAMOU, Jacques; MALDIDIER, Denise. Efeitos do arquivo. A análise do discurso no lado da história. In: ORLANDI, Eni P. (Org.). Gestos de leitura: da história no discurso. 3 ed. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 2010. p. 161-183.
LUNKES, Fernanda L. Depressão e medicalização no discurso jornalístico. Curitiba: Appris, 2018.
MARIANI, Bethania. Da incompletude do arquivo: teorias e gestos nos percursos de leitura. RESGATE – Revista Interdisciplinar de Cultura, v. 24, p. 9-26, 2016. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/resgate/article/view/8647082
MEDEIROS, Vanise; SILVA, Raphael Mendes. Notas que (trans)bordam: um arquivo a conhecer. CONFLUÊNCIA, v. 61, p. 66-98, 2021. Disponível em: https://www.revistaconfluencia.org.br/rc/article/view/442.
NUNES, José Horta. O discurso documental na História das Idéias Lingüísticas e o caso dos dicionários. Alfa, São Paulo, n. 52 (1), p. 81-100, 2008. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/1468
PÊCHEUX, Michel. Análise de discurso e informática. In: ORLANDI, Eni (Org.). Análise de Discurso: Michel Pêcheux. 3. ed. Campinas, SP: Pontes, 2011. p. 275-282.
ROMÃO, Lucília M.S; LEANDRO-FERREIRA, M aria Cristina; DELA-SILVA, Silmara. Arquivo. In: MARIANI, Bethania; MEDEIROS, Vanise; DELA-SILVA, Silmara. (Orgs.). Discurso, arquivo e…. Rio de Janeiro: 7 Letras/FAPERJ, 2011. p. 11-21
ZOPPI-FONTANA, Mónica. “Acontecimento, arquivo, memória: às margens da lei”. In: Revista Leitura, n° 30, Maceió: 2002, p. 175-205. Disponível em: https://periodicos.ufal.br/revistaleitura/article/view/7489
Referências
DELA-SILVA, Silmara; LUNKES, Fernanda. E o casamento acabou: uma análise do arquivo de Veja sobre o imaginário da mulher divorciada. Conexão Letras, v. 9, p. 135-148, 2014. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/conexaoletras/article/view/55148. Acesso em: 15 dez. 2025.
PÊCHEUX, Michel. Ler o arquivo hoje. In: ORLANDI, Eni (org.). Gestos de leitura: da história no discurso. 4. ed. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 2014.
