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Acontecimento jornalístico

Silmara Dela Silva (UFF)

O acontecimento jornalístico é uma noção que, no quadro teórico-metodológico da análise de discurso proposta por Michel Pêcheux, se constitui a partir do discurso tomado como acontecimento. Conforme afirma Pêcheux ([1983] 2008, p. 17), o discurso, como objeto teórico que decorre da língua em sua inscrição na história, comporta estrutura e acontecimento… acontecimento que se dá “no ponto de encontro de uma atualidade e uma memória”.

Como nos mostra o próprio Pêcheux, nas análises que apresenta do enunciado “On a gagné”, no cenário francês de maio de 1981, as práticas jornalístico-midiáticas são práticas discursivas, que “faz(em) trabalhar” o acontecimento, justamente inscrevendo um fato – a exemplo da vitória de François Mitterand, nas eleições presidenciais francesas, como trazido por Pêcheux ([1983] 2008, p. 19) – “em seu contexto de atualidade e no espaço de memória que ele convoca e que já começa a reorganizar”. Assim, é o discurso jornalístico que constrói o acontecimento que ganha espaço na mídia, em seus recortes do que apresentar com relação a esse contexto de atualidade e pela mobilização da memória na qual o inscreve.

Essas práticas jornalísticas, que são práticas discursivo-midiáticas, têm sua especificidade, uma vez que são pautadas por técnicas que regulam o fazer jornalístico, em nossa conjuntura sócio-histórica. Por isso, entendemos que se trata de um modo específico de funcionamento do discurso, relacionado à imprensa enquanto instituição e à posição sujeito jornalista que constitui.

Entendemos, assim, o acontecimento jornalístico como “uma construção do jornalismo, enquanto uma prática discursiva da/na mídia”, que “não se confunde com a existência empírica dos acontecimentos, quaisquer que sejam eles” (Dela-Silva, 2015, p. 222). Desse modo, propomos um distanciamento entre uma visão comunicacional do jornalismo, que considera que as notícias e os demais relatos que circulam na mídia decorreriam somente de um fato com presumível interesse jornalístico e que, por isso, receberia espaço na mídia; como se o fato preexistisse à narrativa jornalística sobre ele.

Como afirma Guimarães (2001, p. 14-15), a respeito da prática de enunciar na mídia: “…o acontecimento para o jornal, aquilo que é enunciável como notícia, não se dá por si, como evidência, mas é constituído pela própria prática do discurso jornalístico. Enunciar na mídia inclui uma memória da mídia pela mídia.”. O acontecimento jornalístico não se trata, assim, de uma associação necessária entre um fato empírico e o seu relato. Um exemplo disso está em práticas jornalístico-midiáticas que incidem sobre fatos que ainda sequer aconteceram empiricamente. É o caso da televisão no Brasil, por exemplo, que é construída discursivamente pela imprensa – sendo relatada em inúmeras notícias e reportagens – desde 1948, ainda que somente viéssemos a ter uma transmissão televisiva no país em 1950 (Dela-Silva, 2008). É o acontecimento jornalístico da televisão no Brasil – enquanto uma prática discursiva – que constrói sentidos para a televisão.

Ao tratar da noção de acontecimento histórico, Le Goff (1996) aponta que os acontecimentos que se tornam parte da história são selecionados pelo historiador, não se dando, assim, como uma mera evidência. Afirmação que nos faz lembrar também de P. Henry, que sustenta que: “… não há ‘fato’ ou ‘evento’ histórico que não faça sentido, que não peça interpretação, que não reclame que lhe achemos causas e consequências.” (Henry, [1984] 2010, p. 47). É também nessa direção que compreendemos o acontecimento jornalístico: como uma construção que atesta o próprio jornalismo como prática sócio-histórica; como um acontecimento do discurso que pressupõe sujeitos e tomadas de posição; como um gesto de interpretação.

Verbete inicialmente escrito como roteiro para a gravação do vídeoverbete “Acontecimento jornalístico”, que integra a Encidis – Enciclopédia Virtual do Discurso e áreas afins. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=arIKhycYMYw.

Em 2012, Angela Baalbaki, em seu artigo intitulado Análise discursiva de revista de divulgação científica: o lugar da memória do futuro, trata sobre o funcionamento da “narratividade” ao se debruçar sobre as análises de imagens de criança, de cientista e de sua profissão a partir das postagens da seção “Quando crescer, vou ser…” da revista Ciência hoje da criança. A autora diz do efeito de linearidade histórica, produzido pela “narratividade”, considerando que os dizeres dos sujeitos-jornalistas são organizados em presente-passado-futuro e, assim, propiciam determinados sentidos a se estabilizarem e a se tornarem hegemônicos.

Em 2018, Bruna L. de Souza, Jéssica S. Rangel, Laís S. Alcântara e Luan Siqueira retomam a noção de narratividade para refletir sobre as eleições municipais, de 2016, do Rio de janeiro. Os autores entendem que os jornais cariocas O Globo e Extra, em seus discursos sobre as eleições formulados em manchetes, buscam criar uma linearidade narrativa política, ou seja, narrativizam os fatos expostos a fim de influenciar a opinião pública a respeito dos dois candidatos que disputavam o pleito em 2016: Marcelo Freixo e Marcelo Crivella.

À luz da noção de narratividade, temos que discursos produzidos por sujeitos-jornalistas, aparentemente dispersos, podem ser compreendidos como uma longa narrativa a respeito de um objeto (referente) e que, por sua linearidade temporal, acabam por dar a ilusão de completude e de continuidade da história contada, criando, assim, um efeito de verdade, de cristalização dos acontecimentos.

Narratividade retoma um primeiro gesto de inventariar essa noção teórica, apresentado em:

DELA-SILVA, Silmara; LUNKES, Fernanda; CARNEIRO, Ceres. Discurso e mídia e(m) inventário digital: uma pesquisa em movimento. In: FLORES, Giovanna B. et al (Orgs.). Análise de discurso em rede: cultura e mídia. Vol. 6. Campinas-SP: Pontes Editores, 2023. p. 347-362.

Referências

DELA-SILVA, S. (Des)Construindo o acontecimento jornalístico: por uma análise discursiva dos dizeres sobre o sujeito na mídia. In: FLORES, G.B.; NECKEL, N.R.M.; GALLO, S.M.L. (Orgs.). Análise de discurso em rede: cultura e mídia. Campinas-SP: Pontes Editores, 2015. p. 213-232.

DELA-SILVA, S.C. O acontecimento discursivo da televisão no Brasil: a imprensa na constituição da TV como grande mídia. 2008. 225 p. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP.

GUIMARÃES, E. O acontecimento para a grande mídia e a divulgação científica. In: GUIMARÃES, E. (Org.). Produção e circulação do conhecimento. Estado, mídia e sociedade. v. 1. Campinas: Pontes Editores, 2001. p. 13-20

HENRY, P. [1984]. A história não existe? In: ORLANDI, E. (Org.). Gestos de leitura: da história no discurso. 3 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2010. p. 23-47.

LE GOFF, J. História e memória. Tradução de Bernardo Leitão [et. al.]. 4 ed. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 1996.

PÊCHEUX, M. [1983]. O discurso: estrutura ou acontecimento. 5 ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2008.

 

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