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Informação x notícia no discurso jornalístico

Giovanna Benedetto Flores
Pesquisadora independente

No funcionamento do jornalismo, a imprensa ainda acredita (e se faz acreditar) nos efeitos de neutralidade, imparcialidade e objetividade, efeitos estes que funcionam como forma de legitimidade da informação. Isto porque, segundo Mariani (1998), a imprensa, ao narrar, noticiar um acontecimento, busca retratar o cotidiano por meio de fatos que já estão na memória do leitor e, desse modo, organiza e direciona sentidos sobre estes acontecimentos, que podem ser desdobrados em tantas outras notícias. Entendemos que a produção de notícias se dá a partir da formação discursiva e posição-sujeito do próprio jornalista e da linha editorial dos jornais. Ou seja, o princípio do funcionamento jornalístico é a seleção do que irá se tornar notícia.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1997) na sua obra “Sobre a televisão” faz uma crítica ao modo como os jornalistas produzem as notícias. Para ele os jornalistas selecionam somente o que podem ver, através de uma estrutura denominada de óculos. Bourdieu (1997) usa esta metáfora para explicar as estruturas invisíveis que organizam a práxis jornalística, selecionando o que é sensacional, espetacular. É nessa seleção que as clivagens são produzidas, determinando o que vai ou não ser disponibilizado para a interpretação. Essa clivagem já é uma prévia interpretação determinada pelas condições de produção do discurso jornalístico. Portanto, a notícia é uma versão de um acontecimento histórico/social, não a tradução objetiva, neutra, imparcial, descompromissada, porque são meras retóricas usadas para preservar os interesses das empresas jornalísticas.

Essa técnica de redação da notícia tem como objetivo construir o mito da informação jornalística, responsabilizando os próprios jornalistas “pelo relato mais ou menos fidedigno dos fatos” (Mariani, 1998, p. 97), que resulta num “poder dizer” sem que se tenha o controle disso. Ou seja, o discurso jornalístico atua no cotidiano “definindo” quais assuntos interessam aos leitores, organizando direções de sentidos, sem que os leitores percebam. Mariani (1998) explica que “encontra-se no discurso jornalístico uma discursivização do cotidiano, que se apaga para o leitor. E é nessa discursivização (um falar sobre de natureza institucional) que os mecanismos de poder vão distribuindo espaços dos dizeres possíveis e silenciando o que não pode e não deve ser dito: “os jornais nomeiam, produzem explicações, enfim, ‘digerem’ para os leitores aquilo sobre o que se fala. Esse processo de encadeamento cria a ilusão de uma relação significante entre causas e consequências para os fatos ocorridos” (Mariani, 1998, p. 60).

A partir da noção de Gallo (2018) sobre a discursividade da informação, em que um dizer produzido em uma determinada discursividade, ao ser transportado para outra, perde os sentidos dos pré-construídos, mobilizando novos sentidos para a interpretação e assim é interpretado como informação, podemos pensar sobre a diferença entre informação e notícia no discurso jornalístico, na relação discursiva materialista e na práxis jornalística.

A diferença entre notícia e informação (Flores, 2018, 2022, 2023, 2025) está na formulação do dizer de uma determinada discursividade, porque ao transportar o acontecimento de uma discursividade para outra, apagando a historicidade e as condições de produção do acontecimento, aquele dizer passa a ser interpretado pela historicidade e pela memória do discurso jornalístico, que produz uma nova interpretação, sempre marcada pela posição política assumida pela mídia. Dito de outro modo, é pelo discurso jornalístico que as instituições produzem sentidos que interessam a determinados grupos/segmentos da sociedade, apagando para o leitor o funcionamento da produção de notícia e informação. É pelas condições de produção da nova discursividade que o discurso jornalístico produz o efeito de neutralidade. Para compreender este efeito de neutralidade do discurso jornalístico da grande mídia, é necessário relacionar com a política do silêncio, que para Orlandi (2002) pode ser o silêncio constitutivo ou o silêncio local. Entendo que estes efeitos (neutralidade, imparcialidade e objetividade) são relacionados ao silêncio constitutivo, que, segundo Orlandi (2002, p. 75), “ao não dizer algo apagamos necessariamente outros sentidos possíveis (…) a política do silêncio produz um recorte entre o que se diz e o que não se diz”.

A partir da noção sobre o silêncio constitutivo, Flores (2025) entende que:

[…] ao produzir este recorte, o discurso jornalístico apaga, silencia a historicidade e o pré-construído de um determinado acontecimento, produzindo sentidos somente para o acontecimento presente, como se não houvesse memória dos fatos ocorridos. É justamente aí que a mídia produz o efeito de neutralidade.  Ainda pensando neste apagamento, compreendo que a censura está no nível do esquecimento n.2 (Cf. Pêcheux, 2009)[1], que funciona como autocensura, porque o jornalista “sabe” como é possível escrever em uma notícia e produz a reportagem alinhada a linha editorial do veículo que atua. Portanto, este efeito de neutralidade produz a informação e não a notícia (Flores, 2025, p. 12-13).


Desse modo, a mídia de referência produz no discurso jornalístico direções de sentidos apagando o processo histórico, a historicidade, mas mantendo os mesmos sentidos que estabilizam os dizeres do discurso institucional sem que o leitor/ouvinte/telespectador perceba que está recebendo apenas informação, criando a imagem de um jornalismo em que todos têm acesso aos acontecimentos de forma objetiva, imparcial e transparente, contribuindo na constituição do imaginário social.

[1] Ver em: PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução de Eni Orlandi et al. 4. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.

Em 2012, Angela Baalbaki, em seu artigo intitulado Análise discursiva de revista de divulgação científica: o lugar da memória do futuro, trata sobre o funcionamento da “narratividade” ao se debruçar sobre as análises de imagens de criança, de cientista e de sua profissão a partir das postagens da seção “Quando crescer, vou ser…” da revista Ciência hoje da criança. A autora diz do efeito de linearidade histórica, produzido pela “narratividade”, considerando que os dizeres dos sujeitos-jornalistas são organizados em presente-passado-futuro e, assim, propiciam determinados sentidos a se estabilizarem e a se tornarem hegemônicos.

Em 2018, Bruna L. de Souza, Jéssica S. Rangel, Laís S. Alcântara e Luan Siqueira retomam a noção de narratividade para refletir sobre as eleições municipais, de 2016, do Rio de janeiro. Os autores entendem que os jornais cariocas O Globo e Extra, em seus discursos sobre as eleições formulados em manchetes, buscam criar uma linearidade narrativa política, ou seja, narrativizam os fatos expostos a fim de influenciar a opinião pública a respeito dos dois candidatos que disputavam o pleito em 2016: Marcelo Freixo e Marcelo Crivella.

À luz da noção de narratividade, temos que discursos produzidos por sujeitos-jornalistas, aparentemente dispersos, podem ser compreendidos como uma longa narrativa a respeito de um objeto (referente) e que, por sua linearidade temporal, acabam por dar a ilusão de completude e de continuidade da história contada, criando, assim, um efeito de verdade, de cristalização dos acontecimentos.

Narratividade retoma um primeiro gesto de inventariar essa noção teórica, apresentado em:

DELA-SILVA, Silmara; LUNKES, Fernanda; CARNEIRO, Ceres. Discurso e mídia e(m) inventário digital: uma pesquisa em movimento. In: FLORES, Giovanna B. et al (Orgs.). Análise de discurso em rede: cultura e mídia. Vol. 6. Campinas-SP: Pontes Editores, 2023. p. 347-362.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997

FLORES, Giovanna B. Afetos, amizades e a teoria que nos une! In: FLORES, G. B.; NECKEL, N. (org.). Espaços de discursividades & afetos. Textualizações com Sol. Campinas: Pontes, 2025. p. 9-21.

FLORES, Giovanna B. Entre ossos e restos: uma imposição do discurso neoliberal no Brasil desgovernado. In: DELA SILVA, S.; LUNKES, F. (org.). Mídia e(m) Discurso: Percursos de pesquisa. Campinas: Pontes, 2022. p. 15-30.

FLORES, Giovanna B. Movimentos e resistências: os jornais feministas nos anos de chumbo no Brasil. In: FLORES, G.B. et al.(org.). Análise de Discurso em Rede: Cultura e Mídia. Horizontes Possíveis. Campinas: Pontes, 2023. v.6, p. 155-171.

FLORES, Giovanna B. O político no discurso jornalístico. Sentidos de notícia e informação. In: SCHERER, A.; DE MEDEIROS, C.; DE OLIVEIRA, S.de M. (org.). Linguística de nosso tempo: teoria e práticas. Santa Maria: Editora da UFSM, 2018. p. 295-310.

GALLO, Solange M. L. Discurso e novas tecnologias de informação. In: NAVARRO, P.; BARONAS, R.L. (org.). Sujeito, Texto e imagem no discurso. Campinas: Pontes, 2018. p. 345-356.

MARIANI, Bethania. O PCB e a imprensa: os comunistas no imaginário dos jornais (1922-1989). Rio de Janeiro: Revan; Campinas: Unicamp, 1998.

ORLANDI, Eni. As formas do silêncio. no movimento dos sentidos. 5. Ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2002.

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