
Narratividade
Silmara Dela Silva (UFF)
Fernanda Lunkes (UFSB)
Ceres Carneiro (UERJ)
A noção de “narratividade”, relacionada à Análise de Discurso de base materialista, comparece inicialmente na tese de Bethania Mariani (1996) para dizer do “processo que atua junto à memória discursiva, engendrando a ilusão da completude”, permitindo “a recomposição interna dos discursos em função das variações e mudanças Históricas” (Mariani, 1996, p. 243), em se tratando, no referido trabalho, do comunismo.
Ao narrar o fato, o sujeito na posição jornalista, porque preenche lacunas, espaços vazios do que está sendo contado, produz um efeito de completude da história, pois ela é tecida “sem falhas, com estruturação temporal, com encadeamento de causas e consequências, com personagens e cenários explicativos” (idem), produzindo, com isso, um discurso sobre o cotidiano aparentemente coerente e estabilizado. Entretanto, ao narrar o fato, repete dizeres autorizados a circularem no espaço midiático e exclui os não autorizados, fazendo com que a “narratividade” funcione como um “fio (‘invisível’)”, que “tece e conduz nos jornais as ressonâncias interdiscursivas, impedindo ou redirecionando o deslizar dos significantes” (Serrani 1993 apud Mariani, 1996, p. 243) para outros significantes indesejados.
Em 2012, Angela Baalbaki, em seu artigo intitulado Análise discursiva de revista de divulgação científica: o lugar da memória do futuro, trata sobre o funcionamento da “narratividade” ao se debruçar sobre as análises de imagens de criança, de cientista e de sua profissão a partir das postagens da seção “Quando crescer, vou ser…” da revista Ciência hoje da criança. A autora diz do efeito de linearidade histórica, produzido pela “narratividade”, considerando que os dizeres dos sujeitos-jornalistas são organizados em presente-passado-futuro e, assim, propiciam determinados sentidos a se estabilizarem e a se tornarem hegemônicos.
Em 2018, Bruna L. de Souza, Jéssica S. Rangel, Laís S. Alcântara e Luan Siqueira retomam a noção de narratividade para refletir sobre as eleições municipais, de 2016, do Rio de janeiro. Os autores entendem que os jornais cariocas O Globo e Extra, em seus discursos sobre as eleições formulados em manchetes, buscam criar uma linearidade narrativa política, ou seja, narrativizam os fatos expostos a fim de influenciar a opinião pública a respeito dos dois candidatos que disputavam o pleito em 2016: Marcelo Freixo e Marcelo Crivella.
À luz da noção de narratividade, temos que discursos produzidos por sujeitos-jornalistas, aparentemente dispersos, podem ser compreendidos como uma longa narrativa a respeito de um objeto (referente) e que, por sua linearidade temporal, acabam por dar a ilusão de completude e de continuidade da história contada, criando, assim, um efeito de verdade, de cristalização dos acontecimentos.
Narratividade retoma um primeiro gesto de inventariar essa noção teórica, apresentado em:
DELA-SILVA, Silmara; LUNKES, Fernanda; CARNEIRO, Ceres. Discurso e mídia e(m) inventário digital: uma pesquisa em movimento. In: FLORES, Giovanna B. et al (Orgs.). Análise de discurso em rede: cultura e mídia. Vol. 6. Campinas-SP: Pontes Editores, 2023. p. 347-362.
Referências
BAALBAKI, A. C. F. Análise discursiva de revista de divulgação científica: o lugar da memória do futuro. Revista do GEL, São Paulo, v. 9, n. 2, p. 46-66, 2012. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/rg/article/view/3. Acesso em out. de 2023.
MARIANI, B. O comunismo imaginário: práticas discursivas da imprensa sobre o PCB (1922-1989). Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, 1996.
SOUZA, B. L. de; RANGEL J. S; ALCÂNTARA, L. S.; SIQUEIRA L. S. Imprensa, política e história: a narratividade jornalística nas eleições municipais do Rio de Janeiro em 2016. Revista Mosaico, São Paulo, 2018. Disponível em: http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br/index.php/revistamosaico/article/viewfile/437/42. Acesso em out. de 2023.